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A Europa gasta o dobro de energia para arrefecer casas. O termóstato não é a única resposta

O consumo doméstico de energia para arrefecimento duplicou na UE entre 2018 e 2024. Sombra, ventilação, isolamento e equipamentos eficientes decidem quanto conforto chega à casa e quanto pesa na fatura.

Mulher fecha portadas numa casa portuguesa entre a luz laranja do calor exterior e a sombra azul do interior, ilustrando arrefecimento doméstico e eficiência energética.
Fechar a sombra antes de o sol entrar reduz a carga térmica que depois teria de ser retirada por uma máquina. AI-generated image

A decisão mais barata sobre arrefecimento acontece antes de a casa aquecer. É a persiana fechada no lado do sol, a janela aberta quando a noite finalmente fica mais fresca, o forno que não precisa ser ligado à tarde. Só depois vem o botão do ar condicionado. Um novo dado europeu mostra por que essa ordem deixou de ser uma pequena preferência doméstica e passou a ser uma questão de energia, saúde e desenho das casas.

O consumo final de energia para arrefecimento nas habitações da União Europeia chegou a 80,4 mil terajoules em 2024, segundo o Eurostat. Em 2018 eram 40,5 mil. Em seis anos, portanto, o total duplicou. A trajetória subiu em todos os anos, exceto 2020 e 2023, quando houve recuos de 2,5% e 1,9% face ao ano anterior. O dado de 2024 é a fotografia comparável mais recente, publicada em 8 de julho de 2026, não uma leitura em tempo real deste verão.

Dois factos aparentemente contraditórios são verdadeiros ao mesmo tempo. O arrefecimento cresce depressa, mas ainda ocupa uma fatia pequena do consumo doméstico europeu. Na decomposição do Eurostat, ele representou 0,8% da energia final usada pelas casas em 2024; o aquecimento dos espaços ficou com 61,5%. A média, porém, esconde climas e edifícios muito diferentes. Chipre e Malta destinaram 16% e 15% do consumo doméstico ao arrefecimento. Em volume total, Itália, Espanha e Grécia lideraram.

Para leitores em Portugal, o número europeu não deve ser transformado numa falsa estatística nacional. Ele serve como sinal de direção: verões mais exigentes estão a converter o conforto térmico numa carga elétrica maior. Para leitores no Brasil, em Angola, Moçambique, Cabo Verde ou noutros países lusófonos, os preços, redes, construção e acesso a equipamentos são outros. A pergunta comum é útil em qualquer lugar: quanto calor a casa deixa entrar antes de tentar expulsá-lo com eletricidade?

Essa pergunta não diminui o papel do ar condicionado. Em calor perigoso, arrefecer um quarto pode proteger a saúde, sobretudo de idosos, bebés, pessoas com doença crónica, grávidas e quem não consegue recuperar durante noites quentes. A Organização Mundial da Saúde lembra que o calor pode desencadear exaustão e golpe de calor e agravar doenças cardiovasculares, respiratórias, renais e de saúde mental. Tratar o equipamento como luxo moralmente suspeito ignora quem precisa dele; tratá-lo como resposta única ignora a casa e a rua à volta.

A primeira camada é impedir a radiação solar de atravessar o vidro. Estores, portadas, toldos e sombra exterior tendem a travar o calor antes de ele entrar; cortinas e persianas interiores ainda ajudam quando são a opção disponível. A OMS recomenda usar o ar noturno para arrefecer a casa, reduzir a carga térmica durante o dia e desligar aparelhos elétricos desnecessários. Isso exige bom senso local: abrir janelas só ajuda quando o ar exterior está mais fresco e a segurança, o ruído e a qualidade do ar permitem.

A segunda camada é o próprio edifício. A Direção-Geral da Ação Climática da Comissão Europeia recomenda entender por que uma casa sobreaquece antes de dimensionar a máquina: sombreamento solar, isolamento e ventilação podem reduzir a necessidade, o tamanho do equipamento e o custo de funcionamento. Não existe uma receita única. Isolamento mal pensado, ventilação sem controlo ou janelas abertas durante o pico de calor podem piorar o problema. Obras devem considerar humidade, orientação, materiais, clima e regras locais.

Quando o equipamento é necessário, a etiqueta é mais útil do que a promessa «gela rápido». A Comissão Europeia diz que aparelhos de ar condicionado vendidos na UE trazem classe de eficiência para frio e calor, consumo anual ou horário e níveis de ruído. O rácio sazonal de eficiência, o SEER, ajuda a comparar o desempenho ao longo da estação. O registo EPREL permite consultar modelos colocados no mercado europeu. Capacidade correta também conta: sobredimensionar não é sinónimo de conforto e pode aumentar ciclos, desgaste e consumo.

A operação diária completa a conta. A página europeia sobre produtos eficientes aconselha manter o ponto de temperatura tão alto quanto for confortável, usar ventoinha em conjunto com ar condicionado e não arejar enquanto o sistema está a arrefecer. Baixar o termóstato ao mínimo não arrefece magicamente sem custo. A Agência Internacional de Energia considera que equipamentos eficientes, desenho passivo e mudança de hábitos precisam avançar juntos para que a procura de arrefecimento não pressione redes e orçamentos.

O mercado já está a mudar. A Comissão estima que a UE passou de menos de 7 milhões de aparelhos de ar condicionado de ambiente instalados em 1990 para mais de 57 milhões em 2020, podendo superar 100 milhões em 2030. Não é apenas uma história de mais caixas nas fachadas. É também uma corrida pela hora mais difícil do sistema elétrico: muitas casas ligam equipamentos ao mesmo tempo, exatamente quando o calor aperta e a procura sobe. Eficiência reduz tanto a fatura individual como esse pico coletivo.

Há ainda uma fronteira que a etiqueta não resolve. Uma família pode não ter dinheiro para comprar um aparelho eficiente, pagar a eletricidade, trocar uma janela ou isolar um teto. Inquilinos podem viver num edifício que não controlam. Por isso, a resposta precisa de alertas de saúde, apoio direcionado, regras de construção, renovação de habitações, árvores e espaços públicos frescos. A OMS defende planos de ação para o calor e contacto com pessoas vulneráveis; conforto térmico não pode depender apenas do poder de compra de cada sala.

Duplicar o consumo em seis anos não é argumento para desligar o ar condicionado quando a saúde exige. É aviso para não desperdiçar uma tecnologia necessária numa casa que continua a absorver calor sem defesa. O gesto da persiana e a escolha da máquina pertencem à mesma política doméstica. A melhor resposta não é escolher entre sombra e compressor. É fazer a sombra trabalhar primeiro, dimensionar o compressor depois e garantir que ninguém fica preso numa casa perigosa porque não consegue pagar nenhuma das duas coisas.

Nota editorial. Informação geral sobre energia, habitação e segurança no calor. Não é aconselhamento médico, elétrico, de engenharia, arquitetura ou compra. Em calor extremo, siga alertas oficiais e orientação clínica; obras e instalações devem cumprir regras locais e ser executadas por profissionais qualificados.

Fontes

  1. Eurostat, «Energy use for cooling in EU households doubled in 6 years», publicado em 8 de julho de 2026 e consultado em 12 de julho de 2026. Verificado: 40,5 mil TJ em 2018, 80,4 mil TJ em 2024, variação anual, países com maiores volumes e maiores parcelas de consumo.
  2. Eurostat, «Energy consumption in households», dados extraídos em junho de 2026 e consultados em 12 de julho de 2026. Verificado: habitações como 26% do consumo final de energia da UE, arrefecimento com 0,8% e aquecimento dos espaços com 61,5% em 2024, metodologia e conjunto de dados nrg_d_hhq.
  3. Comissão Europeia, Direção-Geral da Ação Climática, «5 things you should know about extreme heat – and how to beat it», publicado em 9 de julho de 2026 e consultado em 12 de julho de 2026. Verificado: contexto das ondas de calor de 2026, papel e limites do ar condicionado, sombreamento, isolamento, ventilação e adaptação urbana.
  4. OMS Europa, «#KeepCool in the heat», atualizado em 8 de junho de 2026 e consultado em 12 de julho de 2026. Verificado: riscos de saúde, grupos vulneráveis e recomendações para usar ar noturno, sombra, menos carga elétrica e contacto com pessoas isoladas.
  5. Comissão Europeia, «Air Conditioners and Comfort Fans», consultado em 12 de julho de 2026. Verificado: etiqueta energética, SEER, EPREL, capacidade adequada, uso do termóstato, estimativas de equipamentos instalados em 1990, 2020 e 2030 e orientações ao consumidor.
  6. Agência Internacional de Energia, «Staying cool without overheating the energy system», publicado em 28 de julho de 2025 e consultado em 12 de julho de 2026. Verificado: crescimento da procura, pressão de pico, eficiência dos equipamentos e combinação de ar condicionado, ventoinhas, desenho passivo e política pública.

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Rafael Gomes, Editor, edição em português na Sona News
Escrito por
Rafael Gomes
Editor, edição em português, Sona News

Rafael Gomes edita a edição em português da Sona News e cobre economia, tecnologia e clima para leitores lusófonos.

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