Sona.
Notícias globais, contexto local
Lifestyle

Em Portugal, 83% dos jovens têm competências digitais básicas. O teste vai além do telemóvel

A nova fotografia do Eurostat põe o país acima da média da UE entre os 16 e 24 anos. Mas o indicador só chega ao nível básico quando atravessa informação, comunicação, criação, segurança e resolução de problemas.

Mão coloca a quinta peça das competências digitais junto a um tablet numa mesa de estudo.
O indicador do Eurostat só chega ao nível básico quando as cinco áreas avaliadas cumprem o limiar. Imagem gerada por IA

O número português está acima da média

Estar quase sempre online e saber resolver a vida online não são a mesma coisa. Uma nova publicação do Eurostat, divulgada esta quarta-feira, 15 de julho, mostra que 74,6% dos jovens de 16 a 24 anos na União Europeia tinham pelo menos competências digitais básicas em 2025. A leitura dos dados por país coloca Portugal acima dessa média: 83,37%.

A diferença é relevante. O resultado português supera o europeu em 8,82 pontos percentuais e aproxima o país mais do grupo da frente do que dos dois únicos Estados-membros abaixo de 60%, Bulgária e Roménia. Ainda assim, a fotografia inversa merece espaço: 16,63% dos jovens em Portugal não atingiam o limiar composto. É cerca de um em cada seis.

Esse complemento não descreve uma geração «sem jeito para tecnologia». Também não diz que essas pessoas não usam internet. Diz algo mais específico: pelas atividades recolhidas no inquérito europeu, não reuniram o nível mínimo em todas as áreas necessárias para serem classificadas como tendo pelo menos competências digitais básicas.

O que conta como competência básica

O indicador não atribui pontos por tempo de ecrã, número de aplicações instaladas ou rapidez a escrever no telemóvel. O Eurostat combina atividades em cinco áreas: literacia da informação e dos dados; comunicação e colaboração; criação de conteúdo digital; segurança; e resolução de problemas. Para chegar ao resultado «pelo menos básico», é preciso atingir nível básico ou superior nas cinco. Uma lacuna pode puxar a classificação inteira para baixo.

Na prática, as áreas misturam gestos muito diferentes. Procurar informação sobre bens, saúde ou notícias e verificar fontes pertence à primeira. Enviar correio eletrónico, fazer chamadas, usar mensagens ou participar em serviços cívicos entra na comunicação. Criar e editar ficheiros, trabalhar com folhas de cálculo ou combinar texto e imagem mede criação. Ajustar privacidade e proteger dados entra em segurança. Instalar aplicações, mudar definições, usar banca online ou recursos de aprendizagem ajuda a medir resolução de problemas.

Há uma limitação importante: isto é um proxy baseado em atividades declaradas. Não houve um examinador a observar cada jovem a detetar uma fraude, construir uma fórmula ou recuperar uma conta. O método assume que ter realizado certas tarefas corresponde a possuir a competência associada. É útil para comparar populações com uma régua comum, mas não serve para certificar uma pessoa nem para prever como ela reagirá a qualquer problema novo.

A familiaridade pode esconder a área mais fraca

É por isso que a manchete não deve ser lida como uma medalha para quem nasceu com um ecrã por perto. Uma pessoa pode comunicar com facilidade e nunca rever as permissões de localização. Pode editar vídeo e ter dificuldade em reconhecer uma fonte manipulada. Pode usar inteligência artificial todos os dias sem saber proteger dados pessoais, organizar ficheiros ou explicar como verificou uma resposta.

A própria fotografia geral da vida digital europeia mostra a distância entre acesso e domínio. Em 2025, 94% das pessoas na UE tinham usado internet nos três meses anteriores, segundo o Eurostat. Entre os jovens, porém, a percentagem com o conjunto mínimo das cinco competências ficou abaixo disso. A ligação abre a porta; não garante que alguém saiba atravessar todos os corredores.

As jovens surgem ligeiramente à frente

Em Portugal, 85,08% das mulheres dos 16 aos 24 anos tinham pelo menos competências digitais básicas, face a 81,72% dos homens da mesma idade. A diferença é de 3,36 pontos percentuais. O padrão acompanha a média europeia, onde a proporção feminina foi de 75,9% e a masculina de 73,3%.

Os números não explicam a causa. Não permitem concluir que um género aprende tecnologia de forma diferente, que a escola resolve a diferença ou que redes sociais produzem competência. Mostram apenas uma associação na medição de 2025. Qualquer explicação séria exigiria olhar para educação, condições económicas, tarefas realizadas, desenho do inquérito e outras variáveis.

O contexto nacional também pede moderação. O relatório português da Década Digital 2026 diz que o país melhorou as competências básicas mais lentamente do que a média da UE, apesar de ter aumentado a proporção de especialistas em tecnologias de informação. A Comissão reconhece espaço para progresso e aponta o Plano de Ação do Pacto para as Competências Digitais 2026–2030. Um bom resultado entre jovens não apaga o fosso no conjunto da população.

Um teste prático em cinco perguntas

Para um jovem, uma família, uma escola ou uma entidade formadora, o uso mais honesto destes dados não é perguntar «sou bom em tecnologia?». É procurar a peça que falta. Uma autoavaliação simples pode começar assim:

  • Informação: consigo comparar fontes, reconhecer publicidade e verificar uma afirmação antes de a partilhar?
  • Comunicação: sei escolher o canal, colaborar num documento e gerir a minha identidade sem expor outras pessoas?
  • Criação: consigo produzir e editar um ficheiro útil, organizar dados simples e respeitar autoria e licenças?
  • Segurança: revejo permissões, uso autenticação forte, reconheço pressão fraudulenta e sei que dados não devo enviar?
  • Resolução de problemas: consigo instalar, configurar, atualizar e recuperar uma ferramenta sem clicar às cegas em cada aviso?

A resposta não precisa de ser «sim» a tudo. O objetivo é transformar uma estatística nacional numa lacuna treinável. Quem domina criação mas hesita em segurança precisa de prática diferente de quem comunica bem e não consegue organizar informação. Escolas e cursos também ganham quando deixam de tratar «digital» como uma disciplina única e observam tarefas concretas.

Portugal aparece bem entre os 16 e 24 anos, e isso merece ser registado sem triunfalismo. O dado mais útil não é que a juventude sabe mexer no telemóvel. É que competência digital é uma corrente de cinco elos. A próxima melhoria começa precisamente no elo que a rotina online tornou fácil ignorar.

Nota editorial. Informação geral sobre competências e educação digital. O indicador é uma estimativa populacional baseada em atividades declaradas, não um diagnóstico ou certificado individual. Formação, segurança e requisitos profissionais devem ser confirmados com entidades competentes.

Fontes

  1. Eurostat, «75% of young Europeans have at least basic digital skills», publicado e consultado em 15 de julho de 2026. Verificado: média da UE de 74,6%, países com valores mais altos e mais baixos, diferença por sexo e definição resumida do indicador.
  2. Eurostat, conjunto de dados «Individuals' level of digital skills (from 2021 onwards)» (isoc_sk_dskl_i21), extraído em 15 de julho de 2026. Verificado: Portugal 83,37% no total, 85,08% nas mulheres e 81,72% nos homens dos 16–24 anos; UE 74,55%, 75,93% e 73,25%, respetivamente.
  3. Eurostat, metadados de referência do Digital Skills Indicator 2.0, consultados em 15 de julho de 2026. Verificado: cinco áreas, atividades componentes, regra do nível «pelo menos básico», uso como proxy e limites de comparabilidade temporal.
  4. Comissão Europeia, «Portugal's 2026 Digital Decade Country Report», atualizado em 17 de junho e consultado em 15 de julho de 2026. Verificado: progresso português mais lento do que a média da UE nas competências básicas, espaço para melhoria e referência ao Plano de Ação do Pacto para as Competências Digitais 2026–2030.
  5. Eurostat, «Digital economy and society statistics - households and individuals», dados de 2025 consultados em 15 de julho de 2026. Verificado: 94% das pessoas na UE usaram internet nos três meses anteriores e distinção entre acesso, utilização e competências.

Ajude-nos a melhorar

Este artigo foi útil para você?

Um retorno anônimo ajuda a Sona a melhorar próximas reportagens, títulos e contexto das fontes.

A seguir

Mão adulta verifica o arnês de uma cadeirinha antes do trajeto escolar, com mochila amarela no piso traseiro.
Lifestyle
“Cinto-me Vivo”: confirme cadeirinha e arnês antes da escola

A campanha decorre de 8 a 14 de setembro com sensibilização e fiscalização. No regresso às aulas, confirme adequação, instalação e ajuste: ter a cadeira no carro não basta.

Continue lendo

Mais em Estilo de vida

Mãos recortam fotografia escolar conceptual para excluir crachá, localização e emblema antes da partilha. Lifestyle
Foto do primeiro dia de aulas: esconda escola, nome e localização
Mão move ficha azul de preferências para pasta de matrícula num banco de campus, ilustrando os resultados do ensino superior. Lifestyle
Ensino superior: foi colocado? A matrícula acaba a 27 de agosto
Peça azul de proposta entra numa roda de decisão enquanto uma peça verde regressa pela via de resposta. Lifestyle
Dia da Juventude: como saber se a sua voz entrou na decisão
Rafael Gomes, Editor, edição em português na Sona News
Escrito por
Rafael Gomes
Editor, edição em português, Sona News

Rafael Gomes edita a edição em português da Sona News e cobre economia, tecnologia e clima para leitores lusófonos.

Leia a seguir FoodConnect chega a Portugal: comida doada, recolha marcada