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Confiança nas notícias é de 51% em Portugal; 37% evita-as

Confiança e evitamento crescem lado a lado. O retrato português de 2026 ajuda a separar uma pausa deliberada da indiferença e a tornar o consumo de notícias mais controlável.

Mão fecha a capa de um telemóvel com notícias abstratas enquanto a televisão continua ligada numa sala portuguesa.
A cena ilustra uma pausa seletiva: o inquérito mede afastamento declarado, não abandono total nem uma causa psicológica. Imagem gerada por IA

À hora do pequeno-almoço, desligar o ecrã do telemóvel não significa necessariamente abandonar as notícias. A televisão pode continuar ligada, uma newsletter pode ficar guardada para mais tarde e o jornal local pode ser consultado ao fim do dia. Essa distância seletiva ajuda a explicar um aparente paradoxo do Digital News Report Portugal 2026: o país continua a confiar relativamente muito no jornalismo, mas uma parte crescente do público escolhe afastar-se do fluxo informativo.

A confiança geral nas notícias ficou em 51%, menos três pontos percentuais do que no ano anterior, mas ainda acima dos 40% observados no conjunto dos mercados estudados pelo Reuters Institute. Em paralelo, 37% dos participantes em Portugal afirmou evitar notícias por vezes ou frequentemente. A leitura mais útil não é que mais de um terço deixou de se informar. A pergunta mede um comportamento declarado de evitamento e inclui quem apenas faz pausas ocasionais.

O retrato nacional foi preparado pelo OberCom a partir do inquérito internacional do Reuters Institute. Em Portugal participaram 2.024 adultos com acesso à internet, ouvidos entre janeiro e fevereiro de 2026. Como a recolha foi online, o resultado descreve a população conectada e não deve ser apresentado como um censo de todos os residentes. O próprio relatório recomenda cautela com oscilações de dois pontos percentuais ou menos, por poderem refletir variação amostral.

O afastamento também não começou este ano. A série portuguesa passou de 22% em 2017 para 37% em 2026, com um pico de 42% em 2022. A trajetória, portanto, não é uma linha sempre ascendente. Mostra uma mudança de longo prazo com avanços e recuos, atravessada por ciclos noticiosos muito diferentes, da pandemia a períodos eleitorais.

A média esconde diferenças importantes. O evitamento foi indicado por 41% das mulheres e 33% dos homens. Chegou a 43% entre participantes de rendimento mais baixo, contra 32% no grupo de rendimento mais alto. Entre pessoas com escolaridade elevada ficou em 31%, abaixo dos 39% e 40% observados nos níveis médio e baixo. São associações no inquérito, não provas de que género, rendimento ou escolaridade causem o comportamento.

Também seria excessivo diagnosticar cansaço, ansiedade ou desinteresse em cada pessoa que respondeu. O estudo mede hábitos e perceções, não uma condição clínica nem a motivação individual de todos os participantes. A queda no interesse ajuda a enquadrar o tema: 50% disse ter muito interesse por notícias, depois de a mesma medida ter chegado a 70% em 2015. Ainda assim, interesse, confiança e frequência de contacto são dimensões diferentes.

Portugal preserva uma combinação de meios pouco reduzível à ideia de que o telefone substituiu tudo. Cerca de sete em cada dez inquiridos viu notícias na televisão durante a semana. Ao mesmo tempo, 79% usou o smartphone para esse fim. O telemóvel é uma porta de entrada dominante, mas convive com um meio televisivo que continua forte e com marcas jornalísticas tradicionais.

A frequência também muda conforme o que está a ser medido. Mais de metade, 51%, afirmou aceder à internet mais de dez vezes por dia. Só 9% disse fazer o mesmo com notícias, enquanto 41% consultou informação noticiosa entre duas e cinco vezes por dia. Estar permanentemente online não equivale a acompanhar jornalismo em todos esses momentos. Essa diferença abre espaço para uma rotina informativa deliberada, em vez de uma sucessão indistinta de alertas.

A confiança depende ainda da porta usada. No perfil do Reuters Institute, 21% dos portugueses disse confiar nas notícias encontradas em redes sociais, comparados com 40% nos motores de busca e 24% nos chatbots de inteligência artificial. Estes valores não medem a exatidão de cada conteúdo. Medem a confiança que as pessoas dizem depositar na informação quando chega por canais com cadeias de origem e critérios muito diferentes.

Há outro limite temporal. A recolha portuguesa apanhou o início de 2026 num ambiente político intenso, antes das eleições presidenciais e legislativas referidas pelo relatório. Eventos desse tipo podem elevar a exposição, alterar o interesse e aumentar a vontade de fazer uma pausa. O estudo oferece uma fotografia comparável daquele período, não uma identidade permanente do público português.

Para o leitor, a resposta prática não precisa de ser escolher entre saturação e silêncio. Um primeiro passo é definir dois ou três momentos concretos do dia para consultar notícias, deixando notificações apenas para assuntos que realmente exigem urgência. A intenção não é cumprir uma fórmula universal, mas substituir interrupções automáticas por uma decisão visível.

O segundo passo é preservar a cadeia de origem. Quando uma afirmação chega por uma rede social, um motor de busca ou um chatbot, vale abrir a peça original, confirmar a data e perceber quem recolheu a informação. Para uma decisão com consequência real, uma comparação adicional costuma ser mais útil do que percorrer dezenas de versões quase iguais. Notícias locais merecem uma fonte local quando a regra, o serviço ou o risco depende do município.

Uma pausa também funciona melhor quando tem uma porta de regresso. Guardar uma fonte direta, escolher uma newsletter com horário previsível ou combinar uma revisão curta ao fim do dia evita que o afastamento ocasional se transforme, sem intenção, em desconhecimento prolongado. Se o assunto estiver a provocar sofrimento ou a interferir com a vida quotidiana, um artigo sobre hábitos mediáticos não substitui apoio profissional.

O Plano Nacional de Literacia Mediática 2025-2029 dá ao tema uma dimensão pública. A estratégia aprovada pelo Governo português trata a utilização crítica dos media como competência para diferentes idades e contextos de aprendizagem. Isso importa porque o ónus não pode ficar apenas no indivíduo. Plataformas, escolas, órgãos de comunicação e instituições públicas influenciam a clareza da origem, a qualidade dos sinais e o custo de verificar uma mensagem.

Para leitores noutros países lusófonos, os números não devem ser exportados como se descrevessem Brasil, Angola, Moçambique ou qualquer outra realidade. O que atravessa fronteiras é a pergunta: como manter contacto suficiente com informação fiável sem entregar todo o dia ao fluxo? Em Portugal, a resposta de 2026 parece menos uma fuga total e mais uma negociação entre confiança, interesse, televisão, telefone e tempo disponível.

O dado central, por isso, não é uma sentença sobre um público cansado. É um sinal de que confiança no jornalismo e evitamento de notícias podem coexistir na mesma pessoa. Uma rotina mais pequena, previsível e verificável não resolve os problemas do ecossistema mediático. Pode, contudo, tornar mais claro quando se está a escolher informação e quando é o fluxo que escolhe por nós.

Nota editorial. Informação geral sobre hábitos de consumo noticioso e literacia mediática. O inquérito não diagnostica qualquer condição nem substitui apoio profissional. Os resultados descrevem utilizadores de internet inquiridos em Portugal e não devem ser transpostos para outros países lusófonos.

Fontes

  1. OberCom, «Digital News Report Portugal 2026», publicado em junho e consultado em 22 de julho de 2026. Verificado: amostra portuguesa, confiança, interesse, evitamento, diferenças sociodemográficas, uso de televisão e smartphone e frequência de acesso.
  2. Reuters Institute, «Digital News Report 2026: Portugal», consultado em 22 de julho de 2026. Verificado: confiança portuguesa e global, evitamento, canais de descoberta, confiança por porta de acesso e contexto eleitoral da recolha.
  3. Reuters Institute, «Digital News Report 2026 methodology», consultado em 22 de julho de 2026. Verificado: recolha online, universo de utilizadores de internet, dimensão aproximada das amostras nacionais e cautela com pequenas oscilações.
  4. Presidência do Conselho de Ministros, Resolução n.º 65/2025, «Plano Nacional de Literacia Mediática 2025-2029», consultada em 22 de julho de 2026. Verificado: estatuto, período e objetivo público da estratégia portuguesa de utilização crítica dos media.

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Rafael Gomes, Editor, edição em português na Sona News
Escrito por
Rafael Gomes
Editor, edição em português, Sona News

Rafael Gomes edita a edição em português da Sona News e cobre economia, tecnologia e clima para leitores lusófonos.

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