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Voo zero-G Portugal–Estónia: o avião não vai ao espaço

Em 20 de setembro, 35 estudantes deverão partilhar um voo parabólico a partir de Santa Maria. A manobra cria cerca de 22 segundos de microgravidade de cada vez, dentro da atmosfera e sem entrar em órbita.

Avião em corte com três bolas flutuantes percorre uma parábola sobre uma ilha atlântica.
Ilustração conceptual das fases de um voo parabólico sobre o Atlântico; não reproduz a rota, a aeronave nem o voo de setembro. Imagem gerada por IA

<strong>Portugal e Estónia vão juntar estudantes no mesmo voo parabólico em 20 de setembro, com partida prevista da ilha de Santa Maria, nos Açores.</strong> A novidade é concreta: a Agência Espacial Portuguesa anunciou hoje um grupo de 35 jovens, 25 selecionados em Portugal e 10 na Estónia. O que eles vão experimentar é microgravidade durante breves manobras de um avião, não uma viagem ao espaço.

A distinção evita duas leituras erradas. O avião não alcança a órbita, e os passageiros não ficam sem a atração da Terra. Durante a parte central de cada parábola, aeronave, pessoas e objetos seguem juntos uma trajetória de queda livre. Como tudo acelera de modo semelhante, deixa de existir por alguns segundos o apoio do chão que sentimos como peso.

A comunicação mais recente amplia o grupo português

O <a href="https://ptspace.pt/pt/portugal-e-estonia-partilham-o-voo-astronauta-por-um-dia-de-2026/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">anúncio publicado em 13 de agosto</a> pela Agência Espacial Portuguesa indica 25 participantes portugueses e 10 estónios. A <a href="https://www.astronautaporumdia.pt/wp-content/uploads/2026/06/Astronauta-por-um-Dia-2026-Finalistas-2026.pdf" target="_blank" rel="noopener noreferrer">lista de finalistas atualmente ligada no site da iniciativa</a> contém também 25 nomes portugueses.

Há uma divergência documental que merece ser explicitada, não escondida. O regulamento de 2026 e a notícia de 26 de junho diziam que os 20 primeiros classificados seriam selecionados, acompanhados por uma lista de dez suplentes. A Agência não explica, no anúncio de hoje, como o grupo português passou de 20 para 25. A informação operacional mais recente aponta para 25; os documentos anteriores permanecem úteis para compreender o processo, mas não devem ser usados para reduzir a contagem atual.

O avião sobe, cai com controlo e volta ao voo horizontal

Segundo a <a href="https://www.airzerog.com/zero-g-flights-how-it-works/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">explicação técnica da Novespace</a>, operadora do Airbus A310 Zero G, cada manobra tem três partes. Na subida, o nariz é elevado e os ocupantes sentem cerca de 1,8 g, quase o dobro do peso habitual. No início da parábola, a potência é ajustada e o avião entra numa trajetória balística. A fase de queda livre cria cerca de 22 segundos de microgravidade. Na recuperação, regressa aproximadamente a mesma carga de 1,8 g antes de o avião nivelar.

Não é um mergulho descontrolado. Durante as parábolas, três pilotos dividem o controlo da inclinação, das asas e da potência dos motores. A operadora indica que procura manter a aceleração próxima de zero nos três eixos, com precisão de cerca de 0,02 g. Tripulantes no interior ajudam a gerir os movimentos e a preparar o regresso ao chão da cabine.

Vinte e dois segundos não equivalem a viver em órbita

A semelhança está na sensação local de queda livre; a escala é diferente. Uma estação orbital cai continuamente em torno da Terra e pode manter microgravidade durante meses. O A310 permanece na atmosfera, intercala cada parábola com voo nivelado e repete janelas curtas. A experiência aproxima os jovens de uma ferramenta usada em treino e investigação, mas não os transforma em astronautas profissionais nem reproduz uma missão espacial completa.

Também não é correto dizer que a gravidade “desliga”. Ela continua a puxar o avião e tudo o que está nele. Uma bola solta flutua em relação à cabine porque ambos estão a cair em conjunto. Quando o piloto inicia a recuperação, o chão volta a exercer força sobre os ocupantes e a sensação de peso reaparece, primeiro reforçada pela fase de 1,8 g.

Os dois países chegaram ao voo por seleções diferentes

Em Portugal, a quinta edição recebeu 762 candidaturas. O processo passou por vídeo e motivação, testes de memória, velocidade e raciocínio espacial, provas de aptidão física e entrevista. O regulamento procurou representação territorial na primeira triagem, desde que existissem candidaturas com a classificação mínima, mas as fases seguintes ordenaram os candidatos pelo desempenho.

A delegação estónia foi escolhida separadamente pela Space Estonia. De acordo com o anúncio conjunto, começou com um jogo online de capacidades cognitivas, seguiu para um acampamento espacial de três dias com engenharia e trabalho em equipa e terminou com entrevistas para escolher dez jovens. Estes percursos não devem ser tratados como uma tabela única: cada agência conduziu o seu processo e aplicou as suas próprias etapas.

A seleção ainda não elimina as condições de voo

Para o grupo português, o <a href="https://www.astronautaporumdia.pt/regulamento" target="_blank" rel="noopener noreferrer">regulamento oficial</a> mantém três salvaguardas importantes. Os selecionados têm de participar nas atividades preparatórias, entregar um certificado de aptidão médica com os exames exigidos e receber a aprovação final da Novespace. O tratamento dos dados médicos deve ser confidencial. Uma presença numa lista pública, por si só, não substitui essas verificações.

As candidaturas de 2026 já terminaram. Para estudantes e famílias que ficaram de fora, o anúncio não abre uma nova inscrição nem venda de lugares. Também não anuncia acesso público ao aeroporto, percurso observável, transmissão em direto ou horário detalhado. Não vale a pena reservar uma deslocação a Santa Maria com base nessa suposição; acompanhe os canais oficiais da iniciativa para eventuais informações destinadas ao público.

O efeito mais longo começa depois de aterrar

O programa não termina nos segundos de microgravidade. Os finalistas portugueses tornam-se embaixadores do Astronauta por um Dia junto das comunidades escolares no ano letivo de 2026/27, com a responsabilidade de relatar a experiência e promover interesse pelo setor espacial. É aí que uma cabine com poucos lugares pode alcançar mais alunos: através de sessões que expliquem também seleção, esforço, limites e ciência, e não apenas a imagem de alguém a flutuar.

Até 20 de setembro, a formulação rigorosa é simples: o voo está marcado e o grupo conjunto foi anunciado; a preparação e as autorizações ainda antecedem a descolagem. Se tudo avançar, os jovens vão sentir sucessivamente mais peso, queda livre e mais peso dentro de um avião. O feito não precisa de ser promovido como uma ida ao espaço para ser raro, educativo e tecnicamente esclarecedor.

Nota editorial. O voo está marcado para 20 de setembro de 2026, mas a participação individual depende das atividades preparatórias, aptidão médica e aprovação final da operadora. A comunicação de 13 de agosto e a lista atual indicam 25 finalistas portugueses; documentos anteriores referiam 20. Confirme atualizações nos canais oficiais antes de qualquer deslocação.

Fontes

  1. Agência Espacial Portuguesa, “Portugal e Estónia partilham o voo Astronauta por um Dia de 2026”, 13 de agosto de 2026. Fonte primária para a data, partida de Santa Maria, composição de 25 jovens portugueses e 10 estónios, processos de seleção e preparação conjunta.
  2. Astronauta por um Dia, Regulamento 2026. Fonte primária para elegibilidade, etapas portuguesas, versão anterior de 20 lugares, preparação obrigatória, aptidão médica, decisão final da Novespace e mandato de embaixador.
  3. Astronauta por um Dia, lista oficial de finalistas de 2026. Documento primário atualmente publicado com 25 nomes, usado apenas para confirmar a contagem e não para reproduzir dados de menores.
  4. Novespace/Air Zero G, “How parabolic flights work”. Fonte técnica da operadora para as três fases da parábola, cerca de 22 segundos de microgravidade, carga aproximada de 1,8 g e divisão de tarefas entre três pilotos.
  5. Agência Espacial Portuguesa, “Astronauta por Um Dia 2026: 20 finalistas conhecidos”, 26 de junho de 2026. Fonte institucional anterior para as 762 candidaturas, etapas e anúncio inicial de 20 finalistas, contrastado com a atualização de agosto.
  6. Space Estonia, página institucional. Fonte primária para a natureza do organismo estónio, cooperação internacional e integração da Estónia na ESA desde 2015.

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Rafael Gomes, Editor, edição em português na Sona News
Escrito por
Rafael Gomes
Editor, edição em português, Sona News

Rafael Gomes edita a edição em português da Sona News e cobre economia, tecnologia e clima para leitores lusófonos.

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